Talvez tenhas reparado que, nos últimos meses, estive mais silenciosa.
Não porque tivesse menos para dizer.
Na verdade, aconteceu precisamente o contrário.
Havia tanta coisa para organizar, compreender e integrar que precisei de parar antes de conseguir encontrar as palavras certas para a partilhar.
Durante mais de vinte anos fui construindo a minha prática clínica da mesma forma como, por vezes, construímos uma casa.
Uma divisão de cada vez.
Primeiro chegaram as pessoas.
Depois chegaram as perguntas.
Vieram as formações.
Os diferentes modelos de psicoterapia.
O trabalho com adultos.
Com bebés.
Com crianças.
Com famílias.
Os grupos terapêuticos.
O trauma.
O corpo.
A imagética.
A hipnose clínica.
O Yoga Restaurativo Terapêutico.
A natureza.
Durante muito tempo pensei que estava apenas a acrescentar novas ferramentas.
Hoje percebo que não era isso que estava a acontecer.
Na verdade, estava à procura de uma resposta.
A pergunta que mudou tudo
Esta procura começou muito cedo.
Ao longo dos primeiros anos de prática clínica acompanhei muitas pessoas que faziam percursos profundamente transformadores.
Encontravam recursos.
Compreendiam a própria história.
Organizavam a experiência.
Seguiam a sua vida.
Mas havia outras.
Pessoas que compreendiam perfeitamente aquilo que lhes tinha acontecido.
Reconheciam os padrões.
Sabiam de onde vinha o sofrimento.
Conseguiam explicar tudo aquilo que estavam a viver.
E, apesar disso, chegava um momento em que o processo parecia parar.
A compreensão continuava a crescer.
Mas a mudança deixava de acontecer.
Foi nessa altura que uma pergunta começou a acompanhar-me.
Porque é que compreender nem sempre chega para transformar?
Essa pergunta nunca mais me deixou.
Quando a clínica encontra a vida
Essa pergunta não nasceu apenas das pessoas que acompanhava.
Nasceu também da minha própria vida.
Ao longo dos anos vivi experiências que me confrontaram exatamente com aquilo que observava no consultório.
A dificuldade em engravidar.
Mais tarde, o cancro quando o meu filho tinha apenas um ano.
Percebi, na primeira pessoa, que compreender racionalmente uma situação não significa conseguir vivê-la de forma diferente.
O corpo pode continuar em alerta.
As emoções podem continuar presas.
As relações podem continuar organizadas em torno da proteção.
Uma parte de nós pode saber que o perigo passou.
Enquanto outra continua a viver como se ele ainda estivesse presente.
Foi aí que comecei a perceber que talvez existissem diferentes formas de aprender.
E diferentes formas de mudar.
À procura de novas linguagens
Foi então que comecei uma procura muito mais profunda.
Não à procura de técnicas.
Mas de linguagens.
Ao longo dos anos fui integrando diferentes formas de trabalhar.
A palavra.
O corpo.
A relação.
Os grupos.
A natureza.
A criatividade.
O símbolo.
Cada uma delas parecia conseguir chegar a lugares onde outra, por si só, não chegava.
Pela primeira vez comecei a perceber que diferentes dimensões da experiência humana comunicam através de diferentes linguagens.
O que descobri
Nos últimos meses parei para olhar para todo este percurso.
E aconteceu uma coisa inesperada.
Percebi que todas estas abordagens tinham um ponto em comum.
Não eram caminhos diferentes.
Eram diferentes portas de entrada para a mesma casa.
Foi dessa integração que nasceu a Arquitetura Clínica da Reorganização Humana.
Não nasceu de um livro.
Nem de uma teoria.
Nem de uma única formação.
Nasceu da relação entre centenas de pessoas, milhares de horas de psicoterapia e uma procura que continua até hoje.

Esta conversa está apenas a começar
Ao longo das próximas semanas quero partilhar contigo algumas das perguntas que deram origem a esta forma de compreender a mudança.
Porque é que compreender nem sempre chega?
O que acontece quando o corpo continua em alerta?
Porque utilizamos diferentes linguagens clínicas?
Que papel têm as relações na transformação?
Como reconhecemos a mudança antes de ela se tornar visível?
O novo website ainda está a ser construído.
Mas percebi que não fazia sentido esperar para começar esta conversa.
Talvez alguma destas perguntas também seja tua.
Se for, espero encontrar-te no próximo artigo.
No próximo artigo
Porque compreender nem sempre chega?
Uma reflexão sobre aquilo que a compreensão pode transformar… e aquilo que precisa de uma experiência diferente para mudar.
Subscrever a Newsletter para saber quando estiver disponível
Deixe um comentário