Quando sabemos exatamente aquilo que nos aconteceu e, mesmo assim, continuamos presos.
Há uma frase que ouvi centenas de vezes ao longo da minha prática clínica.
Talvez tu próprio já a tenhas dito.
“Eu sei tudo isto… mas continuo igual.”
No início da minha profissão, esta frase deixava-me profundamente inquieta.
Porque, se a pessoa compreendia aquilo que lhe tinha acontecido, porque continuava a sofrer?
Se reconhecia os padrões, porque continuava a repeti-los?
Se sabia que o perigo já tinha passado, porque continuava em alerta?
Durante muito tempo pensei que talvez faltasse mais compreensão.
Mais sessões.
Mais explicações.
Mais consciência.
Hoje penso de forma diferente.
Compreender continua a ser essencial
Quero dizer uma coisa muito importante.
Não acredito que compreender seja menos importante.
Muito pelo contrário.
A compreensão organiza.
Ajuda-nos a construir uma narrativa.
Permite-nos ligar acontecimentos que antes pareciam soltos.
Dá significado ao sofrimento.
Sem compreensão, muitas vezes, nem sequer conseguimos perceber aquilo que estamos a viver.
Mas comecei a perceber que existiam experiências que pareciam viver noutro lugar.
Há uma parte de nós que aprende de outra forma
Imagina uma pessoa que sofreu um acidente de automóvel.
Anos depois, sabe perfeitamente que está segura.
Sabe que aquele acidente terminou.
Sabe que o perigo já passou.
Mas basta entrar novamente num carro para sentir o coração acelerar.
As mãos transpiram.
O corpo fica tenso.
A respiração muda.
A compreensão continua presente.
Mas o corpo ainda responde como se o perigo estivesse ali.
Ou pensa numa criança que cresceu a acreditar que precisava de agradar a todos para ser amada.
Em adulta, compreende perfeitamente que já não precisa de viver dessa forma.
E, ainda assim, continua a dizer “sim” quando queria dizer “não”.
Não porque lhe falte inteligência.
Nem porque não tenha compreendido.
Mas porque uma parte da sua experiência continua organizada em torno dessa necessidade de proteção.
Foi aqui que comecei a mudar a minha prática
Ao longo dos anos percebi que algumas partes da nossa experiência aprendem sobretudo através das palavras.
Outras aprendem através da relação.
Outras através do corpo.
Outras através da experiência vivida.
Foi isso que começou a explicar porque diferentes pessoas precisavam de diferentes formas de trabalhar.
Algumas beneficiavam muito da conversa.
Outras precisavam também de integrar o corpo.
Outras encontravam no grupo experiências profundamente transformadoras.
Outras ainda precisavam da natureza, do símbolo, da criatividade ou do brincar para conseguirem reorganizar experiências antigas.
Percebi que não existia um único caminho.
Existiam diferentes portas para chegar ao mesmo lugar.
É por isso que a PsiMater utiliza diferentes linguagens
Quando alguém conhece a PsiMater pela primeira vez, pode perguntar-se porque existem propostas aparentemente tão diferentes.
Psicoterapia Individual.
Grupos.
Yoga Restaurativo Terapêutico.
Natureza.
Trabalho com crianças e famílias.
Hoje consigo responder de forma muito simples.
Porque diferentes pessoas precisam de diferentes experiências para reorganizar aquilo que viveram.
A palavra continua presente.
Mas nem sempre trabalha sozinha.
Não se trata de escolher entre compreender ou sentir
Durante muito tempo discutiu-se se a mudança acontecia através da compreensão ou da experiência.
Hoje acredito que essa talvez nem seja a pergunta certa.
Não precisamos de escolher.
Precisamos de criar um diálogo entre ambas.
Quando a compreensão encontra uma experiência suficientemente segura, algo começa finalmente a reorganizar-se.
É aí que, muitas vezes, surgem as mudanças que durante tanto tempo pareciam impossíveis.
A conversa continua
Na próxima semana quero responder a outra pergunta.
Se compreender não chega, então porque é que o corpo parece lembrar-se de coisas que a nossa mente já compreendeu?
É aí que começaremos a falar do sistema nervoso.
Mas prometo fazê-lo da mesma forma.
Sem complicar.
Porque acredito que a ciência só faz verdadeiramente sentido quando nos ajuda a compreender melhor a nossa própria vida.
Caderno PsiMater
Recebe cada artigo no teu email
Escrevo aqui todas as semanas sobre a forma como compreendo a mudança. Cancelas quando quiseres.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico ou médico.
Deixe um comentário