Porque, por vezes, saber não é suficiente para nos sentirmos verdadeiramente seguros.
Há momentos em que sabemos exatamente aquilo que está a acontecer.
Sabemos que a conversa acabou.
Sabemos que a relação terminou.
Sabemos que a criança cresceu.
Sabemos que já não estamos naquele lugar.
Sabemos, até, que não fizemos nada de errado.
E, no entanto, basta um olhar, uma crítica, um silêncio mais prolongado ou uma determinada situação para sentirmos o corpo encolher por dentro.
Como se alguma coisa, dentro de nós, ainda estivesse à espera de um perigo que já passou.
É aqui que muitas pessoas começam a duvidar de si próprias.
“Se eu já sei isto tudo, porque continuo a sentir-me assim?”
Durante muito tempo, essa pergunta acompanhou também o meu trabalho clínico.
Não é falta de vontade
Quando alguém repete um padrão que lhe faz mal, é frequente ouvir comentários como:
“Se já percebeu, porque não muda?”
“Só precisa de ganhar coragem.”
“Tem de deixar isso para trás.”
À primeira vista, estas frases parecem fazer sentido.
Mas, ao longo dos anos, fui percebendo que quase nunca explicavam aquilo que realmente estava a acontecer.
A maioria das pessoas que acompanhei queria muito mudar.
Tinham refletido.
Lido.
Falado.
Compreendido.
E continuavam a sentir-se bloqueadas.
Não lhes faltava inteligência.
Nem motivação.
Nem vontade.
Faltava compreender que uma parte da experiência humana aprende de uma forma diferente daquela que usamos para pensar.
Quando o corpo responde antes de pensarmos
Imagina alguém que, em criança, cresceu num ambiente onde qualquer erro podia dar origem a críticas ou conflitos.
Hoje é adulto.
Sabe que está num contexto diferente.
Sabe que as pessoas à sua volta não são aquelas pessoas.
Mas basta ouvir um tom de voz mais duro para sentir o peito apertar.
Ou imagina alguém que viveu uma relação onde se habituou a estar constantemente atento ao humor do outro.
A relação terminou há muito tempo.
E, ainda assim, continua a interpretar pequenos sinais como possíveis ameaças.
Não porque esteja a imaginar coisas.
Mas porque há respostas que foram aprendidas através da experiência repetida.
Essas respostas não desaparecem simplesmente porque compreendemos que já não são necessárias.
Proteger-nos foi, um dia, uma boa solução
Há uma ideia que mudou profundamente a minha forma de olhar para o sofrimento.
Durante muito tempo perguntamo-nos:
“Porque é que continuo a fazer isto?”
Hoje gosto mais de perguntar:
“Para que serviu isto?”
Porque muitas das respostas que hoje nos limitam foram, um dia, tentativas inteligentes de adaptação.
Aprendemos a agradar porque isso protegia a relação.
Aprendemos a esconder emoções porque não havia espaço para as sentir.
Aprendemos a estar sempre atentos porque isso diminuía a imprevisibilidade.
Aprendemos a controlar tudo porque o descontrolo parecia perigoso.
Nada disto significa que estas estratégias continuem a ser necessárias.
Mas ajuda-nos a olhar para elas com menos julgamento e mais curiosidade.
A mudança começa quando deixamos de lutar contra nós
Talvez seja por isso que tantas pessoas sentem alívio quando começam a olhar para si desta forma.
Não porque encontrem uma explicação definitiva.
Mas porque deixam de interpretar aquilo que sentem como um defeito.
Começam a perceber que existe uma lógica.
Uma história.
Uma forma de organização que fez sentido num determinado momento da vida.
E é precisamente quando deixamos de lutar contra essas respostas que começamos a criar condições para que elas possam transformar-se.
Não porque as obrigamos.
Mas porque lhes oferecemos experiências diferentes.
Mais seguras.
Mais consistentes.
Mais humanas.
É por isso que a psicoterapia não é apenas compreender
Ao longo destes anos fui percebendo que a psicoterapia não acontece apenas através das palavras.
Acontece também através da relação.
Da forma como somos escutados.
Da possibilidade de experimentar algo diferente daquilo que conhecíamos.
Da repetição de experiências suficientemente seguras para que aquilo que antes precisava de estar sempre em alerta possa, pouco a pouco, descobrir que já não precisa.
É por isso que compreender continua a ser tão importante.
Mas também é por isso que compreender, por si só, nem sempre chega.
A conversa continua
No próximo artigo vou começar a aproximar-nos de uma ideia que transformou profundamente a psicoterapia nas últimas décadas.
Como é que o nosso organismo percebe que está seguro?
E porque é que, por vezes, continua a responder como se o perigo ainda estivesse presente?
Sem complicar.
Sem linguagem excessivamente técnica.
Porque acredito que a ciência só faz sentido quando nos ajuda a compreender melhor aquilo que vivemos todos os dias.
Caderno PsiMater
Recebe cada artigo no teu email
Escrevo aqui todas as semanas sobre a forma como compreendo a mudança. Cancelas quando quiseres.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico ou médico.
Deixe um comentário