Há uma inteligência silenciosa que está continuamente a perguntar: “Estou seguro?”
Imagina que estás a atravessar a rua.
Ouve-se uma travagem brusca.
Antes mesmo de perceberes o que aconteceu, o teu corpo já reagiu.
O coração acelerou.
Os músculos contraíram-se.
Talvez tenhas dado um passo atrás.
Só depois pensaste:
“Foi apenas um susto.”
Esta sequência acontece todos os dias.
E não apenas quando existe um perigo real.
Também acontece nas relações.
Numa conversa.
Num silêncio.
Num olhar.
Num tom de voz.
Há momentos em que o corpo parece perceber alguma coisa antes de conseguirmos colocá-la em palavras.
Durante muito tempo, esta ideia intrigou-me profundamente.
O corpo está sempre a fazer perguntas
Enquanto conversamos, lemos um livro ou caminhamos na natureza, existe uma parte do nosso organismo que continua silenciosamente a observar o ambiente.
Sem pedir autorização.
Sem esperar que pensemos.
Como se perguntasse, continuamente:
“Estou seguro?”
Na maioria das vezes, nem damos por isso.
Quando nos sentimos seguros, esta avaliação permanece invisível.
Mas basta alguma coisa despertar a memória de experiências difíceis para que todo o organismo se reorganize.
Às vezes acontece tão depressa que acreditamos que “foi do nada”.
Na verdade, quase nunca é do nada.
Não é apenas uma questão de pensamentos
Quando alguém diz:
“Eu sei que não há motivo para estar ansioso.”
Costumo acreditar nessa frase.
Porque, muitas vezes, é verdadeira.
A pessoa sabe.
O problema não está naquilo que sabe.
O problema é que o organismo ainda não conseguiu transformar esse saber numa experiência de segurança.
É por isso que duas pessoas podem viver exatamente a mesma situação e senti-la de formas completamente diferentes.
Não porque uma seja mais forte.
Ou mais fraca.
Mas porque cada organismo aprendeu, ao longo da vida, a reconhecer diferentes sinais de segurança e de perigo.
A segurança não é apenas a ausência de perigo
Durante muito tempo pensei que bastava retirar aquilo que fazia sofrer.
Hoje vejo as coisas de outra forma.
Não basta deixar de existir perigo.
Também precisamos de encontrar experiências que o organismo reconheça como suficientemente seguras.
É na relação.
Na presença.
Na previsibilidade.
Na possibilidade de sermos vistos sem julgamento.
Na repetição de experiências diferentes.
Pouco a pouco, o organismo começa a perceber que já não precisa de responder como respondia antes.
Talvez seja por isso que a relação terapêutica é tão importante
Muitas pessoas imaginam a psicoterapia como uma conversa.
E claro que conversar é importante.
Mas, ao longo dos anos, fui percebendo que existe algo ainda mais profundo.
A relação terapêutica pode tornar-se um lugar onde o organismo experimenta, repetidamente, uma forma diferente de estar com o outro.
Sem pressa.
Sem exigência.
Sem necessidade de se defender a todo o momento.
É isso que permite que algumas respostas antigas comecem, pouco a pouco, a reorganizar-se.
Não porque alguém as combate.
Mas porque deixam de ser necessárias.
A conversa continua
Nas últimas semanas tenho partilhado contigo perguntas que acompanharam toda a minha prática clínica.
A próxima leva-nos um pouco mais longe.
Porque, se cada organismo aprende a sentir segurança de forma diferente, será que todas as pessoas precisam do mesmo caminho para mudar?
Foi esta pergunta que começou a transformar a forma como organizei a PsiMater.
E é sobre ela que quero escrever no próximo artigo.
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Escrevo aqui todas as semanas sobre a forma como compreendo a mudança. Cancelas quando quiseres.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico ou médico.
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