A mudança não depende apenas daquilo que vivemos. Depende também da porta através da qual conseguimos começar.
Duas pessoas podem chegar à psicoterapia utilizando exatamente a mesma palavra.
Ansiedade.
Ambas podem dizer que vivem preocupadas, que dormem mal ou que têm dificuldade em descansar.
Mas, quando começamos a escutá-las, percebemos que não estão necessariamente a viver a mesma experiência.
Uma pode precisar de compreender aquilo que está a acontecer na sua vida e organizar uma história que, até então, parecia fragmentada.
Outra pode compreender perfeitamente a origem da ansiedade, mas sentir que o corpo continua permanentemente em alerta.
Outra pode perceber que a dificuldade aparece sobretudo nas relações: no medo de desiludir, na necessidade de agradar ou na impossibilidade de confiar.
Noutra pessoa, aquilo que parece ser uma dificuldade individual pode estar profundamente ligado à relação de casal.
Outra pode ter dificuldade em encontrar palavras para aquilo que sente.
E outra pode descobrir que só consegue aproximar-se de algumas experiências quando está em movimento, em grupo, em contacto com a natureza ou através de uma imagem, de um símbolo ou de uma experiência concreta.
A palavra utilizada para descrever o sofrimento pode ser a mesma.
Mas a forma como esse sofrimento se organizou não é.
E, por isso, o caminho da mudança também não pode ser exatamente igual.
O nome do sofrimento não nos conta a história inteira
Quando alguém diz que vive ansiedade, tristeza, exaustão, dificuldades relacionais ou uma sensação de bloqueio, essa informação é importante.
Mas é apenas o início.
Precisamos ainda de compreender como é que essa experiência aparece.
Em que situações se intensifica.
O que acontece no corpo.
Que pensamentos a acompanham.
Que relações a despertam.
O que acontece quando a pessoa está sozinha.
E quando está com o companheiro ou companheira.
Que formas de proteção foram sendo construídas.
O que já foi tentado.
O que ajuda.
O que parece não chegar.
Duas pessoas podem apresentar dificuldades semelhantes e precisar de pontos de partida muito diferentes.
Não porque uma tenha um problema mais grave do que a outra.
Nem porque exista uma técnica certa para cada sintoma.
Mas porque cada pessoa tem uma história, um corpo, relações, recursos e formas próprias de organizar a experiência.
Não existe uma única linguagem para mudar
Durante muitos anos, fui procurando diferentes modelos e formas de intervenção.
No início, pensei que estava simplesmente a acrescentar novas ferramentas à minha prática.
Mais tarde, compreendi que estava a procurar diferentes linguagens.
A palavra é uma dessas linguagens.
Permite compreender, organizar, dar significado e construir uma narrativa.
Mas também comunicamos através do corpo.
Da relação.
Do silêncio.
Do movimento.
Do brincar.
Da imaginação.
Dos símbolos.
Da criatividade.
Do grupo.
Da família.
Do casal.
Da natureza.
Há experiências que se tornam acessíveis quando conseguimos falar sobre elas.
Outras começam a transformar-se quando são vividas de uma forma diferente.
Por vezes, é a relação com outra pessoa que permite experimentar algo novo.
Noutras situações, é o corpo que precisa de descobrir que já não está no mesmo lugar de perigo.
Uma criança pode comunicar através de um desenho aquilo que ainda não consegue organizar numa conversa.
Uma pessoa pode reconhecer-se na partilha de alguém dentro de um grupo.
Um casal pode descobrir que o conflito visível esconde medos, necessidades ou histórias individuais que nunca chegaram verdadeiramente a ser compreendidos.
E uma experiência na natureza pode tornar concreto um movimento que, até então, existia apenas como intenção.
A pessoa não tem de caber numa técnica
Uma das ideias que mais transformou a minha prática foi esta.
Não é a pessoa que tem de se adaptar a uma determinada técnica.
É o acompanhamento que precisa de se organizar em torno da pessoa.
E, por vezes, em torno da relação que duas pessoas estão a tentar compreender e transformar.
Isso não significa utilizar todos os recursos ao mesmo tempo.
Nem experimentar técnicas diferentes sem uma direção clínica clara.
Significa observar cuidadosamente onde está a dificuldade.
Que dimensão da experiência parece interrompida.
O que é que esta pessoa consegue já compreender.
O que continua inacessível.
De que forma se protege.
O que acontece entre estas duas pessoas.
Que padrões se repetem na relação.
Que recursos já existem.
Que contexto pode criar condições para um movimento diferente.
A partir daí, escolhemos a porta que parece mais adequada para começar.
Por vezes, a palavra é a melhor porta
Há momentos em que precisamos de um espaço individual, protegido e continuado.
Um lugar onde seja possível parar, organizar a experiência e compreender aquilo que está a acontecer.
A psicoterapia individual pode ser especialmente importante quando a pessoa precisa de privacidade.
De acompanhamento próximo.
De continuidade.
De compreensão da sua história.
De apoio num momento de crise ou transição.
De um percurso construído ao seu ritmo.
Da integração de diferentes dimensões da sua experiência.
A relação terapêutica torna-se, nesse contexto, o lugar a partir do qual podemos observar padrões antigos e experimentar formas diferentes de estar connosco e com os outros.
Mas nem todas as pessoas precisam de começar por aí.
E nem todas precisam de permanecer sempre na mesma porta.
Por vezes, é a relação de casal que precisa de ser escutada
Há dificuldades que não pertencem apenas a uma das pessoas.
Aparecem no espaço entre as duas.
Na forma como se aproximam.
Como se afastam.
Como pedem aquilo de que precisam.
Como tentam proteger-se.
Como reagem ao silêncio, ao conflito, à crítica ou à distância.
Por vezes, o casal chega porque discute demasiado.
Noutras situações, porque quase deixou de discutir e também quase deixou de se encontrar.
Pode existir dificuldade em confiar, comunicar, tomar decisões, viver a intimidade, acompanhar uma mudança familiar ou atravessar uma perda.
A psicoterapia de casal online começa por criar momentos conjuntos.
Nesses encontros, procuramos compreender o que está a acontecer entre estas duas pessoas.
Que temas precisam de ser trabalhados.
O que é partilhado.
O que cada pessoa vive de forma diferente.
Que mudança desejam construir.
É importante que ambos consigam participar na definição do trabalho e reconhecer quais são as dificuldades que querem enfrentar enquanto casal.
Mas o processo nem sempre acontece apenas com os dois presentes.
Pode haver momentos em que trabalho individualmente com cada um dos membros do casal.
Não como duas psicoterapias separadas e desligadas.
Mas para aprofundar o mesmo tema que está a ser vivido na relação.
Cada pessoa transporta para o casal a sua história.
As suas formas de proteção.
Os seus medos.
As suas necessidades.
A forma como aprendeu a amar, confiar, aproximar-se, pedir ou defender-se.
Por vezes, é necessário compreender e trabalhar individualmente essas dimensões para que algo diferente se possa tornar possível no encontro com o outro.
Depois, o casal volta a reunir-se.
O movimento acontece entre compreender o que se passa na relação, reconhecer aquilo que cada pessoa leva para essa relação, trabalhar individualmente o que precisa de ser cuidado, e voltar a encontrar-se com maior consciência e novas possibilidades.
Por vezes, é a relação com o grupo que precisa de entrar
Grande parte daquilo que nos faz sofrer acontece nas relações.
É também nas relações que algumas mudanças se tornam possíveis.
Um grupo terapêutico permite observar, num contexto protegido, a forma como nos aproximamos, nos afastamos, confiamos, nos defendemos, ocupamos espaço ou deixamos de o ocupar.
Aquilo que acontece na vida começa também a aparecer no grupo.
Mas existe uma diferença fundamental.
No grupo, essas dinâmicas podem ser reconhecidas, compreendidas e vividas de outra maneira.
Uma pessoa pode descobrir que não é a única a sentir aquilo que sente.
Pode receber um olhar diferente.
Pode experimentar discordar sem perder a relação.
Pode aprender a escutar sem desaparecer.
Pode perceber o efeito que tem nos outros.
E pode levar, progressivamente, essas experiências para a sua vida quotidiana.
Por vezes, o corpo precisa de participar
Podemos compreender muito sobre nós próprios e, ainda assim, continuar tensos, acelerados, bloqueados ou desligados.
Nessas situações, não precisamos necessariamente de mais uma explicação.
Podemos precisar de uma experiência através da qual o corpo encontre novas possibilidades.
A respiração.
O apoio.
A pausa.
O movimento.
O descanso.
A orientação.
A possibilidade de sentir sem ser inundado por aquilo que sentimos.
O trabalho corporal não substitui a compreensão.
Ajuda a criar uma ponte entre aquilo que sabemos e aquilo que conseguimos realmente viver.
É nesse sentido que o Yoga Restaurativo Terapêutico faz parte da PsiMater.
Não como uma aula de exercício ou uma proposta de desempenho físico, mas como uma linguagem terapêutica através da qual podemos desenvolver consciência, regulação e recursos para a vida quotidiana.
Por vezes, a natureza ajuda a tornar o processo vivível
Há experiências que, dentro de quatro paredes, permanecem sobretudo no plano das palavras ou das representações.
Na natureza, algumas dessas experiências podem ganhar corpo.
Um caminho pode tornar visível uma escolha.
Uma travessia pode aproximar-nos do medo de avançar.
Uma árvore que perde as folhas pode ajudar-nos a reconhecer aquilo que terminou sem apagar o que permanece.
Um abrigo pode permitir explorar segurança, limites e pertença.
A natureza não interpreta.
Não diz à pessoa o que deve sentir.
Mas oferece acontecimentos, ritmos, imagens e movimentos que podem participar no processo terapêutico.
Não é apenas o lugar onde a psicoterapia acontece.
Torna-se uma das linguagens através das quais a experiência pode ser reconhecida e reorganizada.
A psicoterapia com a natureza pode também incluir o casal
O trabalho na natureza não tem de ser vivido apenas individualmente ou num grupo alargado.
Pode também integrar casais.
Nesta modalidade, cada pessoa continua a fazer o seu percurso individual.
Observa aquilo que sente.
Encontra-se com as próprias necessidades, medos, limites e escolhas.
Mas faz esse caminho na presença do outro.
E isso cria uma experiência muito particular.
O casal pode caminhar lado a lado e, ainda assim, estar a viver movimentos internos diferentes.
Pode encontrar-se diante da mesma travessia e reagir de formas completamente distintas.
Pode descobrir que um dos membros avança enquanto o outro precisa de parar.
Que um procura proximidade quando o outro precisa de espaço.
Que cada um encontra significados diferentes no mesmo lugar.
As questões do casal surgem naturalmente no caminho.
Não porque a natureza as imponha.
Mas porque caminhar em conjunto torna visíveis algumas das formas como o casal vive também fora dali.
Como decide.
Como espera.
Como acompanha.
Como respeita o ritmo do outro.
Como pede ajuda.
Como lida com a diferença.
A psicoterapia com a natureza permite trabalhar simultaneamente dois movimentos: o crescimento individual de cada pessoa e o crescimento da relação que ambas estão a construir.
Cada pessoa faz o seu caminho.
Mas o casal pode aprender a caminhar em conjunto sem que uma tenha de desaparecer dentro do percurso da outra.
Por vezes, a mudança precisa de incluir a família
Quando trabalhamos com crianças, não podemos olhar apenas para aquilo que acontece dentro da criança.
A experiência infantil organiza-se também nas relações, na família, na escola, no corpo, no brincar e na forma como os adultos compreendem e respondem ao que está a acontecer.
Uma criança pode não conseguir explicar aquilo que sente.
Mas pode desenhar.
Brincar.
Mover-se.
Criar uma história.
Escolher uma imagem.
Ou precisar simplesmente de observar durante algum tempo antes de participar.
Os pais e cuidadores também fazem parte deste processo.
Não para falar pela criança ou corrigir aquilo que ela expressa, mas para aprender a escutar, apoiar e oferecer continuidade fora das sessões.
É por isso que o trabalho com crianças inclui também as famílias.
A mudança da criança não acontece isolada do contexto onde vive.
A porta pela qual começamos pode mudar
Escolher um percurso não significa definir para sempre a forma como uma pessoa ou um casal devem ser acompanhados.
A porta não é uma identidade.
Não existem “pessoas de grupo”, “pessoas de corpo” ou “pessoas de natureza”.
Nem existe uma única forma correta de trabalhar uma relação.
A mesma pessoa pode precisar, em diferentes momentos, de um espaço individual.
De trabalhar a relação de casal.
De experimentar a relação num grupo.
De desenvolver recursos através do corpo.
De integrar a família.
De viver uma experiência na natureza.
Ou de combinar diferentes formas de acompanhamento.
Um casal pode começar em sessões conjuntas e precisar de momentos individuais.
Uma pessoa pode começar individualmente e, mais tarde, beneficiar de um grupo.
Uma família pode procurar apoio por causa de uma criança e descobrir que os adultos também precisam de rever a forma como escutam e respondem.
O que faz sentido num momento pode deixar de ser necessário noutro.
E uma porta pode conduzir naturalmente a outra.
A decisão clínica não consiste em encontrar uma fórmula definitiva.
Consiste em continuar a perguntar: de que precisa esta pessoa, este casal ou esta família, neste momento, para que um movimento diferente se possa tornar possível?
Como saber por onde começar?
Nem sempre é fácil.
Por vezes, a pessoa já sabe aquilo que procura.
Sente que precisa de psicoterapia individual.
O casal reconhece que precisa de ajuda para compreender aquilo que está a acontecer entre os dois.
Existe curiosidade sobre a experiência de grupo.
A pessoa percebe que o corpo precisa de maior atenção.
Ou sente-se profundamente chamada pelo trabalho com a natureza.
Noutras situações, existe apenas uma sensação.
“Preciso de alguma coisa, mas não sei exatamente de quê.”
Essa dúvida não é um problema.
O primeiro passo pode ser simplesmente uma conversa que ajude a compreender o que está a acontecer.
Aquilo que a pessoa ou o casal procuram.
Que disponibilidade existe.
Que grupos ou percursos estão abertos.
E qual poderá ser o ponto de partida mais adequado.
A PsiMater não foi organizada para encaminhar todas as pessoas para o mesmo lugar.
Foi organizada para procurar, com cada pessoa, casal ou família, a porta que faz mais sentido naquele momento.
Não existe uma porta melhor
A psicoterapia individual não é mais profunda do que o grupo.
A psicoterapia de casal não significa que todas as dificuldades pertençam à relação.
O trabalho individual não significa que a relação de casal tenha de ficar de fora.
O trabalho através do corpo não é menos psicológico do que a palavra.
A natureza não é uma alternativa à psicoterapia.
E o trabalho com crianças não pode ser separado das relações onde elas crescem.
São contextos diferentes.
Linguagens diferentes.
Portas diferentes.
O que importa é a relação entre aquilo de que a pessoa, o casal ou a família precisam e aquilo que cada contexto pode verdadeiramente oferecer.
Talvez a pergunta não seja qual é a melhor terapia.
Talvez seja qual é o contexto que pode ajudar esta pessoa ou esta relação a começar a mudar, neste momento da sua vida.
É essa a pergunta que orienta a forma como hoje organizo a PsiMater.
A conversa continua
No próximo artigo, vou apresentar de forma mais concreta as diferentes portas da PsiMater.
Não como uma lista de serviços.
Mas como diferentes pontos de partida.
Quando faz sentido começar pela psicoterapia individual.
Quando é a relação de casal que precisa de ser trabalhada.
O que pode oferecer um grupo.
Como o corpo participa na mudança.
Por que razão a natureza pode tornar-se parte do processo.
E de que forma crianças e famílias podem ser acompanhadas em conjunto.
Porque diferentes pessoas não começam todas pelo mesmo lugar.
Diferentes casais também não precisam todos do mesmo caminho.
E, muitas vezes, encontrar uma porta possível já é o primeiro movimento da mudança.
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Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico ou médico.
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