Porque O Caminho da Seiva nasce mais pequeno, mais íntimo e com mais espaço para integrar.
Há trabalhos que começam por ser uma ideia e que, com o tempo, passam também a ensinar-nos.
Quando iniciei o primeiro ciclo de Psicoterapia com a Natureza, em 2020, sabia que queria levar para fora das quatro paredes aquilo que já fazia dentro delas: a psicoterapia, o trabalho com o corpo, a relação, o símbolo, a criatividade e a possibilidade de viver experiências que não ficassem apenas no plano da compreensão. O que eu ainda não sabia era que cada grupo, cada estação e cada caminho também iriam transformar a forma como eu própria compreendia este trabalho.
Sete ciclos depois, olho para trás com gratidão. Houve encontros intensos, dias de chuva e de sol, silêncios longos, risos, lágrimas, hesitações, travessias e gestos que só ganharam sentido algum tempo depois. Mas, quando penso naquilo que mais me ensinou, não são os exercícios que me aparecem primeiro. São as pessoas e a forma como foram mostrando, por dentro do processo, aquilo de que este trabalho verdadeiramente precisa.
Às vezes, amadurecer um trabalho não significa acrescentar. Significa perceber melhor o que é essencial.
O que as pessoas me foram devolvendo
Ao longo destes anos, fui guardando palavras, desenhos, mensagens e devoluções feitas no final dos encontros ou meses depois. Algumas pessoas recordavam um exercício específico, uma travessia, uma árvore, uma lanterna ou uma frase. Mas, quando comecei a olhar para esse material como um conjunto, percebi que as ideias que mais se repetiam não eram nomes de técnicas.
Falavam de pertença. De poderem abrir-se sem se sentirem julgadas. De regressarem a partes de si que tinham ficado esquecidas. De descobrirem limites, coragem, amizade, aceitação e novas formas de pedir ou receber apoio. Falavam da sensação de serem sustentadas pelo grupo e pela natureza, de voltarem ao corpo e de se autorizarem, por vezes pela primeira vez, a fazer diferente.
Isto ajudou-me a perceber que o centro do trabalho não está na quantidade de experiências que conseguimos colocar dentro de um dia. Está na qualidade do campo que criamos para que uma experiência possa ser vivida, reconhecida e integrada.
O recipiente também faz parte da terapia
Quando falo de recipiente, não estou a referir-me apenas ao lugar físico onde nos encontramos. O recipiente é tudo aquilo que dá forma e sustentação ao processo: o tamanho do grupo, o ritmo, a duração dos encontros, as regras de confidencialidade, a continuidade entre sessões, a presença da equipa e a possibilidade real de cada pessoa ser vista sem ter de disputar espaço.
Durante muito tempo, pensei nestes elementos sobretudo como decisões de organização. Hoje vejo-os claramente como decisões clínicas. A mesma proposta não produz exatamente a mesma experiência num grupo de oito, doze ou vinte e três pessoas. O número altera a circulação da palavra, o tempo disponível, a intimidade, a intensidade, a diversidade e a forma como o grupo consegue reconhecer e responder ao que vai acontecendo.
O recipiente não está simplesmente à volta da terapia. Também participa nela.
O que um grupo de 23 pessoas me ensinou
O último ciclo foi vivido por 23 pessoas. Foi um grupo cheio de vida, diversidade e generosidade. A dimensão trouxe uma energia coletiva muito particular: muitas histórias encontraram eco, surgiram ligações inesperadas e criou-se uma rede ampla de apoio e reconhecimento.
Ao mesmo tempo, essa experiência tornou visível aquilo que eu queria proteger melhor numa etapa seguinte. Num trabalho tão relacional e experiencial, mais pessoas significam também mais movimentos a acompanhar, mais ritmos diferentes, mais silêncios que podem passar despercebidos e menos tempo para cada pessoa encontrar o seu lugar sem pressa.
Não olho para esse grupo como um erro. Pelo contrário. Foi precisamente por ter sido tão rico que conseguiu ensinar-me tanto. Mostrou-me que um grupo grande pode oferecer amplitude e força coletiva, mas que um grupo mais pequeno pode oferecer outra coisa: maior intimidade, mais espaço individual, mais possibilidade de acompanhar micro-movimentos e melhores condições para construir coesão ao longo do tempo.
Não existe um tamanho universalmente certo para todos os grupos. A decisão de trabalhar agora com 10 a 12 pessoas não é uma fórmula. É a escolha que, à luz da experiência acumulada, do feedback recebido e daquilo que quero cuidar nesta nova fase, me parece mais coerente com este percurso.
A profundidade não se mede apenas em horas
Os ciclos anteriores tinham dez encontros e dias muito longos. Esse formato permitiu uma verdadeira imersão. Durante várias horas, saíamos do ritmo habitual, atravessávamos diferentes momentos e deixávamos que a natureza tivesse tempo para entrar no processo. Há uma beleza própria nesses dias extensos e sei que algumas pessoas sentirão saudades deles. Eu também sentirei.
Mas os anos foram-me mostrando outra coisa. Depois de uma experiência emocionalmente exigente, nem sempre precisamos de mais uma proposta. Às vezes precisamos de tempo, silêncio e espaço para que aquilo que aconteceu encontre lugar. Um encontro pode ser muito profundo e, ainda assim, ultrapassar a capacidade de integração disponível naquele dia.
Foi por isso que decidi passar de dez encontros muito longos para oito encontros de quatro horas. Não para fazer uma versão reduzida do que já existia, mas para desenhar um percurso mais concentrado, sustentável e atento à forma como o corpo, a emoção e a relação conseguem permanecer presentes.
A profundidade não se mede apenas pelo número de horas que passamos juntas. Mede-se também pela qualidade da presença e pela possibilidade de aquilo que vivemos continuar a transformar-se depois de regressarmos a casa.
O mês entre encontros não é um intervalo vazio
A psicoterapia não acontece apenas durante as horas em que estamos formalmente reunidos. Continua, muitas vezes de forma discreta, nos dias seguintes. Pode aparecer num sonho, numa conversa, numa reação diferente, numa resistência, numa memória que regressa ou numa escolha que finalmente se torna possível.
No novo ciclo, o tempo entre encontros passa a ser assumido como parte do percurso. Cada sessão dará origem a um Trabalho para Crescer: não um «trabalho de casa» para fazer bem, mas uma proposta de observação, criação ou experiência que ajude a levar o movimento daquele encontro para a vida quotidiana.
A meio de cada mês, haverá também um Ponto de Caminho no grupo de WhatsApp. Um pequeno momento de continuidade para recordar o fio que estamos a seguir, apoiar a integração e permitir que o grupo não exista apenas uma vez por mês.
Isto significa que teremos menos horas concentradas num único dia, mas mais consciência sobre aquilo que acontece no intervalo. O mês deixa de ser um espaço em branco entre sessões e passa a ser território terapêutico.
Continuar não é repetir
Algumas pessoas participaram já em dois ou três ciclos. Durante algum tempo, perguntei-me se a menor intenção de continuidade significava menos compromisso. Hoje vejo essa questão de outra maneira.
Há percursos que terminam porque alguma coisa falhou. E há outros que terminam porque cumpriram a função que tinham naquele momento. Fechar um ciclo pode ser uma forma de integração, e não um abandono. A continuidade do projeto não depende de as mesmas pessoas permanecerem indefinidamente dentro dele.
Também por isso, não queria repetir o formato anterior e pedir a quem regressasse que percorresse outra vez o mesmo caminho. A natureza regressa às estações, mas nunca repete exatamente a mesma paisagem. As pessoas também não.
O novo ciclo precisava de ter um arco próprio. Uma pergunta nova. Um movimento suficientemente diferente para acolher tanto quem já caminhou comigo como quem se aproxima deste trabalho pela primeira vez.
O que a ciência ajuda a proteger
A investigação em psicoterapia de grupo tem encontrado uma associação consistente entre a coesão do grupo, a aliança terapêutica e os resultados do processo, em duas meta-análises que reúnem 55 e 57 estudos. Estudos 1 e 2. Isto não significa que um grupo pequeno seja automaticamente mais terapêutico, nem que exista um número mágico. Significa que a qualidade dos vínculos, o sentimento de pertença, a colaboração e a relação com o grupo não são elementos secundários: fazem parte dos mecanismos através dos quais a mudança pode acontecer.
A investigação sobre intervenções estruturadas em contacto com a natureza é também promissora, sobretudo em áreas como humor, ansiedade e afeto. Ao mesmo tempo, os estudos reúnem programas muito diferentes e apresentam limitações metodológicas, pelo que não podemos tratar «estar na natureza» como uma intervenção universal ou uma garantia de resultado. Estudo 3. A natureza pode oferecer condições importantes, mas a forma como é integrada, o enquadramento clínico, a relação e a singularidade de cada pessoa continuam a ser fundamentais.
Nenhum estudo me diz que doze pessoas são o número certo para O Caminho da Seiva, ou que quatro horas são a duração perfeita. Essas escolhas nascem da minha observação clínica, da experiência da equipa e do feedback dos participantes. A ciência não substitui essa leitura. Ajuda-me a fazer perguntas mais rigorosas e a proteger aquilo que sabemos ser relevante: relação, coesão, estrutura, contexto e capacidade de integração.
O que muda e aquilo que permanece
O Caminho da Seiva terá um grupo fechado de 10 a 12 pessoas e oito encontros mensais de quatro horas. O percurso será conduzido por mim e pelo Mauro, facilitador de natureza e apoio ao processo grupal, e terá continuidade entre sessões através do Trabalho para Crescer e do Ponto de Caminho.
Muda o tamanho do recipiente. Muda o ritmo. Muda a forma como distribuímos a experiência ao longo dos meses.
Mas a essência permanece: a psicoterapia, a relação, o corpo, o grupo, o símbolo, a criatividade, o ritual e a natureza como parte viva do processo. Permanecem também o respeito pelo ritmo individual, a liberdade de não falar ou não participar numa proposta quando isso for necessário e o cuidado de construir segurança sem prometer que o caminho será sempre confortável.
A mudança de formato não diminui o trabalho. Torna-o mais intencional.
O Caminho da Seiva
O novo ciclo chama-se O Caminho da Seiva, da clareira ao fruto.
Escolhi este nome porque a seiva fala de um movimento que acontece por dentro antes de se tornar visível. Circula, nutre, atravessa raízes e ramos, sustenta aquilo que ainda está a formar-se e prepara o fruto muito antes de conseguirmos vê-lo.
Ao longo de oito encontros, acompanharemos oito movimentos: abrir espaço, soltar, recolher, procurar, nutrir, nascer, escolher e integrar. Não como etapas rígidas ou iguais para todas as pessoas, mas como territórios que a natureza nos ajuda a reconhecer e a viver.
O ciclo decorrerá entre 17 de outubro de 2026 e 8 de maio de 2027, na região de Lisboa e Vale do Tejo, sobretudo na Margem Sul. Será um percurso presencial, fechado e progressivo, aberto tanto a pessoas que já participaram noutros ciclos como a quem chega pela primeira vez.
Não é preciso conhecer previamente este trabalho nem saber exatamente aquilo que se procura. É preciso, sobretudo, sentir disponibilidade para um caminho de grupo, para o contacto com a natureza e para um processo que continuará a trabalhar entre encontros.
Sete ciclos depois
Sete ciclos ensinaram-me que amadurecer um trabalho não é defendê-lo exatamente como sempre foi feito. É escutá-lo o suficiente para perceber quando a forma já não protege totalmente a essência. É agradecer aquilo que existiu, reconhecer o que chegou ao fim e ter coragem para redesenhar o que vem a seguir.
Talvez esta seja também uma das aprendizagens da natureza: continuar vivo não é permanecer igual. É conservar o que nutre e encontrar uma nova forma de crescer.
O Caminho da Seiva não nasce apesar dos sete ciclos anteriores. Nasce precisamente por causa de tudo aquilo que eles me ensinaram.
Próximo artigo
A sessão termina. O processo não.
Uma frase que regressa enquanto lavamos a loiça. Uma imagem que aparece num sonho. Uma resposta diferente numa conversa que antes nos deixava sem palavras. Para a semana escrevo sobre aquilo que continua a trabalhar depois de o encontro acabar, e sobre porque é que o intervalo entre sessões deixou de me parecer um espaço vazio.
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Referências científicas
- Burlingame, G. M., McClendon, D. T., & Yang, C. (2018). Cohesion in group therapy: A meta-analysis. Psychotherapy, 55(4), 384-398. Abrir estudo.
- Lo Coco, G., e colegas (2022). The alliance-outcome association in group interventions: A multilevel meta-analysis. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 90(6), 513-527. Abrir estudo.
- Coventry, P. A., e colegas (2021). Nature-based outdoor activities for mental and physical health: Systematic review and meta-analysis. SSM, Population Health, 16, 100934. Abrir revisão.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui avaliação ou acompanhamento psicológico ou médico.
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